Busco algo que não sei o que é...
crônica sobre buscas um propósito...
Quando algum recém-nascido começa a gritar ensurdecedoramente é complicado entender o que realmente acontece após aquele choro descontrolável - não há comunicação da parte dele para dizer o que lhe causa tanta angústia. E agora que virei um jovem adulto, ainda assim, há uma certa inquietação interna que me faz buscar algum destino para a minha vida, encontrar aquela palavra mágica na qual a maioria das pessoas denomina como “propósito”. Estou buscando algo que não sei o que é, como um recém-nascido… Às vezes sei do que se trata; às vezes acho que estou no caminho certo, mas na direção errada. Existe um propósito maior do que buscar um propósito?
Na vida, a construção do nosso aprendizado cognitivo, das nossas percepções éticas e a construção da nossa moral, vêm através do nosso ciclo social: da escola, da família, da igreja, do terreiro, do quintal da casa da vó, das brincadeiras, entre outros lugares. A vida não vem com manual, né?! Na verdade, essa afirmação está um pouco equivocada, porque, desde que nos conhecemos como gente, ouvimos pequenos manuais de vida, ou a ideia do que seria um desses. Em casa, os pais incentivam a estudar, entrar em uma faculdade, casar, ter um lugar para morar, construir uma família e ter uma vida financeira sustentável. Na escola, a mesma coisa, estudar para entrar em uma universidade de qualidade para conseguir emprego em uma empresa renomada e construir uma carreira de sucesso. Nos comerciais, mostram uma vida tranquila e feliz de uma família degustando uma margarina no café da manhã, com uma mesa posta maravilhosa.
Mas que diacho é isso? É certo que seguindo esse caminho vamos encontrar quem somos de verdade?
Vendemos nossas vidas aos casamentos desequilibrados, às empresas que geram lucros estrondosos, a política corrompida. E o propósito? Qual é a parte onde nos dão algum direcionamento de busca desse tal “propósito”? Acho que deveriam ter/oferecer, para além de todo manual improvisado, ao menos um capítulo que nos ensinasse a encontrar o caminho daquilo que viemos fazer, colocar lá em letras miúdas com a opacidade baixa, nem que seja difícil de ler.
E ainda assim, penso comigo, que se houvesse algum manual iria instalar o pé no lugar errado fazendo com que a cadeira da vida ficasse insustentável. Inclusive, os manuais de móveis são complexos demais para entender - um quebra-cabeça de pregos, pinos, parafusos e madeiras. Penso que é mais complexo fazer um manual que a maioria das pessoas não vai entender do que um manual em que as pessoas consigam por si próprias montar o móvel. Desenhos de parafusos, quanta semelhança existe de um parafuso phillips e um ****pozidriv - sei que você também está pesquisando a foto dos dois.
Como filho mais novo, minha função era buscar coisas: ir à padaria, no mercado comprar pilhas, buscar ferramentas para o meu pai.
— Chave de fenda, pega lá para mim.
Trazia a primeira coisa que me parecia, e que remetia um pouco àquele nome ridículo.
— Isso é um ALICATE — com a voz irritada, — é o que tem cabo, da ponta achatada.
— O que é achatado?
— Pode deixar, eu mesmo busco! — indo em direção da caixa de ferramentas.
Minha mãe às vezes pedia (mandava) para ir à padaria bem cedo, antes que a visita acordasse.
— Traz 6 pães francês, 8 biscoitos de queijo, 1 bolo de chocolate e 10 pães de queijo — caçando papel e caneta, — vou anotar para você não esquecer.
Voltava contente, mastigando uma bala que veio de troco.
— Cadê o bolo?
— Não tinha.
— E por que você não trouxe o de coco?
— Você não falou nada - dando de ombros.
— Não sabe fazer nada direito.
Essa é a frase que me rodeia, acreditei nela. A busca fica um pouco complicada quando, além de não saber o que quer seguir, não acredita naquilo que propõe a fazer. Já me apaixonei por várias coisas da vida. Os encantos de uma vida no campo: sonhava em ter uma fazenda repleta de gado. Ser um veterinário para que pudesse cuidar dos animais, até descobrir que, em certas enfermidades, não era possível salvá-los, mas sim necessário sacrificá-los. Já quis ser de tudo: soldado, fotógrafo, lutador, pintor, filósofo, doutor, de tudo. E até hoje sigo buscando o caminho. Agora, como cheguei até aqui? Não sei, me perdi no meio de tantas regras do manual. E eu te pergunto, que manual?




